A Bíblia e a questão do tráfico
negreiro
Meu comentário de hoje é
inspirado pela proximidade do dia 13 de maio, o dia em que foi assinada a
famosa Lei Áurea, que representou, oficialmente, o fim da escravatura no
Brasil. Essa lei foi assinada, como tu deve te lembrar, em 1888, pela princesa
Isabel, filha de D. Pedro II. A escravidão é, sem dúvida, uma página negra na
nossa história, e o preço disso estamos pagando ainda hoje, com toda essa
questão das cotas raciais nas universidades públicas (um sistema que nosso
respeitável Supremo Tribunal Federal considerou constitucional, mais uma vez
porque é politicamente correto, e não porque é justo; mas vá lá...) A
escravidão dos negros foi, talvez, a mais terrível de todas, porque era baseada
na raça (considerada inferior) e era praticamente irreversível (a pessoa tinha
poucas chances de comprar a sua liberdade). Um tanto diferente era a escravidão
no período bíblico, especialmente no tempo do Novo Testamento. Paulo diz aos
escravos, em 1Coríntios 7.21: “se você puder se tornar livre, então aproveite a
oportunidade”. O mais difícil é ver que existe alguma coisa errada com um
sistema quando ele é legal. E a escravatura era prevista em lei. Tanto assim
que mulheres negras, lá nas Minas Gerais, quando elas conseguiam a liberdade e
melhoravam de vida, tinham um pequeno grupo de escravos. Até o famoso Zumbi,
líder do Quilombo de Palmares, tinha escravos! Pastores evangélicos (luteranos) daquele tempo tinham
escravos. Era mais ou menos como ter uma empregada doméstica.
Mas o que a Bíblia tem a ver com
isso? Em primeiro lugar, muitos justificavam o sistema escravagista com
passagens bíblicas. Até se dizia que o sinal de Caim era a pigmentação da pele
– ele teria sido marcado com a mudança da cor da pele! A Bíblia não diz isso.
Mas, na medida em que escravos são mencionados na Bíblia (e nunca se faz uma
pregação aberta contra esse sistema), muitos bons teólogos entendiam que era
legítimo escravizar um ser humano.
Mas tem outro lado dessa
história, e é este que quero contar hoje. Trata-se da influência bíblica para
que se acabasse com o tráfico de negros. A gente sabe pela história que os
ingleses se colocaram contra isso e até criaram uma espécie de patrulha
marítima, para interceptar navios negreiros. O que nem sempre se menciona é um
dado que li num livro que recomendo, chamado Guia Politicamente Incorreto da
História do Brasil, escrito pelo jornalista Leandro Narloch. Diz esse
jornalista que, em geral, se afirma nos livros de história que os ingleses
tinham interesse no fim desse tráfico por razões econômicas. Só que nunca
ninguém diz que tipo de vantagem os ingleses teriam com o fim desse tráfico. A
rigor, acho que não teriam vantagem nenhuma. Leandro Narloch relata que houve,
isso sim, um movimento popular na Inglaterra, liderado por cristãos (acrescento
eu), pedindo o fim desse tráfico vergonhoso. Num determinado momento, mais de
300 mil ingleses aderiram ao boicote ao açúcar, ou seja, deixaram de usar
açúcar em protesto contra o fato de que ele era produzido por negros nos
engenhos do Brasil. (Seria como hoje não comprar produtos vindos da China, por
razões semelhantes.) E entre os líderes desse movimento contra a escravatura
estiveram pastores que foram fundadores da Sociedade Bíblica Britânica e
Estrangeira, em 1804. Entre eles, o político inglês William Wilberforce. Ele se bateu por um retorno aos valores
bíblicos no contexto da Inglaterra, com um combate aos males sociais daquele
tempo. Entre esses males estava a escravidão dos negros. Portanto, causa
bíblica, difusão da Bíblia e sua mensagem e luta contra a opressão de seres
humanos são coisas que andaram de mãos dadas, no caso de gente como William
Wilberforce. Esta é uma figura que valeria à pena conhecer melhor ou estudar
mais de perto.