No dia 10 e 11 de junho de 2010, tive o privilégio de participar do sexto fórum de ciências bíblicas, em São Paulo. Trata-se de um encontro, sediado no Museu da Bíblia, que se destina mais ao mundo acadêmico, ou seja, a estudantes e professores de teologia, interessados em temas relacionados com a Bíblia. A data de junho é escolhida em função do aniversário da SBB, comemorado no dia 10 de junho.
O tema deste ano foi Bíblia e Comunicação. Certamente trata-se de um tema importante. Afinal, não nos interessa simplesmente imprimir a Bíblia, distribuir a Bíblia, pedir às pessoas que leiam a Bíblia. É preciso também que a mensagem seja comunicada. E, principalmente, é preciso que as pessoas entendam a mensagem.
Coube a mim falar sobre Elementos de comunicação na tradução da Bíblia. Um tema importante, e apaixonante. Muitas pessoas, é bem verdade, não se preocupam se o texto traduzido comunica ou não. Importa que tudo que está no original esteja na tradução. Não pode faltar nenhuma palavra, não pode ser acrescentada palavra nenhuma. O Dr. Eugênio Nida, que foi talvez o maior tradutor da Bíblia no século 20, disse certa vez que muitas pessoas temem e respeitam mais as palavras (da tradução da Bíblia) do que temem a Deus! Para tais pessoas, se a tradução da Bíblia comunica ou não, pouco importa; desde que as palavras estejam todas lá.
Uma das coisas que pude pesquisar e apresentar lá em São Paulo, em minha palestra, foi isso de como funciona a comunicação. Muita gente pensa que comunicar é como que transportar informações da minha cabeça para a cabeça dos ouvintes, através da fala ou da escrita. Na verdade, isto é bem mais complexo. Pra começo de conversa, não consigo colocar nada na cabeça de ninguém. O que eu posso fazer é sinalizar que quero comunicar algo, dizer ou escrever uma mensagem, e a pessoa que me escuta ou me lê precisa captar isso. Para que ela capte e para que faça sentido e comunique, ela precisa poder formular um contexto dentro do qual ela consegue entender o que eu disse. Se eu digo, “está atrasado”, e ela se dá conta de que não estou falando do ônibus, mas de uma pessoa que ficou de vir se encontrar comigo, ela logo reformula o contexto, para que minha afirmação faça sentido.
Pesquisadores se deram conta de que quanto mais impactante for uma afirmação, mais relevante e comunicativa ela será. Por outro lado, quanto menos esforço for necessário para entender o que é dito, mais relevante e comunicativo será aquilo que é dito ou escrito. Se alguém diz algo que, para entender, requer de mim um cálculo matemático, minha reação é “estou fora”.
Vou dar um exemplo. Em Isaías 5.10, Deus traz uma séria advertência contra aqueles que só se preocupam em acumular coisas (casas, terras e assim por diante). E aí diz assim, conforme a tradução de Almeida: “Dez jeiras de vinha não darão mais do que um bato, e um ômer cheio de semente não dará mais do que um efa”. A comunicabilidade disto é praticamente zero. Não me diz muito, logo de saída, e ainda preciso fazer um cálculo: dez jeiras de vinha: quanto seria isto? O que é uma jeira? E um bato? E um ômer? E um efa? Posso pesquisar tudo isso, mas até lá talvez minha paciência tenha esgotado. Fico, no entanto, com a impressão de que do muito se tira pouco.
Como seria de se esperar, volto ao meu velho tema: A Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Para quem não conhece as medidas usadas nos tempos bíblicos (batos, efas, etc.), ela traz a mensagem numa linguagem que nos impacta e não requer muito esforço de processamento: “Um alqueire de parreiras dará somente uns vinte litros de vinho, e cem quilos de sementes produzirão somente dez quilos de trigo”. Isto está claro. Isto comunica. Alqueire ainda é um pouco complicado, mas litros e quilos são unidades que conhecemos muito bem.
A lição que fica é esta: Não basta traduzir; tem que comunicar. É muito importante que a tradução seja fiel ao que diz no original. Agora, precisa também comunicar.